9.12.22

europa selvagem wild europe


 
anteontem começou oficialmente meu inferno astral. não que já não viesse batendo aqui há alguns dias, e como, mas agora é oficial, lua cheia e tals.

descendo do ônibus, quase pisava na cabeça desse animal. tirei a foto meio sem ver, olhando mais pro chão em volta do que pro bixo, nem consegui ao certo saber de que animal se trata.

desde maio, quando cheguei em bruxelas, coleciono fotos de pombos mortos nas calçadas, salvas num álbum chamado “europa selvagem”. essa cabeça de bixo veio pra fechar.

dar a ver o ranço da europa selvagem é um exercício diário, algumas coisas são muito importantes:

quando falamos de colônia, falamos do presente

quando denunciamos a violência européia estamos falando de uma força opressora que coloniza ˜ constantemente ˜ outras formas de vida/organização social, animal, mineral, espiritual do/no mundo. o uso da expressão “resto do mundo” diz muito sobre isso

isso que podemos chamar de riqueza que aqui está foi/é roubado pela(s) colonização(ões), constantemente

cidadãos europeus precisam se reconhecer, enquanto coletividade, como co-responsáveis por essas expropriações, beneficiários de privilégios que reverberam desprivilégios no “resto do mundo”

digo coletividade pois não é apenas um ataque pessoal à vc, amigo europeu com quem tive essa conversa ontem. de alguma forma é também sim importante que vc possa sentir este mal estar na sua individualidade, quem sabe daí pode vir uma força transformadora, mas é muito mais sobre você entender que precisa se organizar politicamente com seus iguais caso queira mesmo ser decolonial

meu amigo europeu pode ser uma cabeça de carneiro escalpelada e lançada sobre o passeio da rua

de forma análoga, elites e branquitudes na latinamerica precisam reconhecer seus privilégios e se organizar coletivamente para vislumbrar infiltrações decoloniais. digo por mim, que no Brasil gozo de privilégios estruturais da branquitude. mover decolonialmente nesse sentido passa por exercícios de uma construção lenta, alcançados de forma mais efetiva através de ações coletivas

de forma análoga, posso ser uma cabeça de carneiro escalpelada e lançada sobre o passeio da rua

o topo da pirâmide colonial é de fato restritíssimo, escondido em castelos e dinastias que nós nem sabemos onde ficam, contudo, não adianta, meu amigo europeu, apenas se lamentar pelos pombos mortos e lavar suas mãos operárias enquanto dá voltas ao mundo com seu seguro desemprego garantido

é vdd q a riqueza aqui se manifesta mais nas profundezas da burocracia do que no bem estar social de fato. concordo com vc que o caminho para o alcance de direitos plenos por aqui ainda é longuíssimo, porém, é urgente a tomada de consciência da violência, falta de direitos e empobrecimento global: globalizar as tretas, globalizar as histórias de opressão e resistência, globalizar a pau quebrância do mil grau muito mais mil grau do que tem rolado aqui

poupe a carinha de cachorro que quebrou o pote. foram vcs que inventaram a análise, sirva-se dela, amigo europeu. é ingênuo dizer que não entende os escândalos de corrupção e colapso social na latinamerica/africa/oriente, é daqui q brotou/brota a mentalidade propagadora disso q vc lamenta

é daqui que veio tudo isso. numa discussão, por favor, não esconda os escândalos contemporâneos de corrupção na política européia, fingindo superioridade moral. inclusive, faça ver, a você e sua coletividade, o maior escândalo de todos, a invenção de instrumentos jurídicos que legitimaram o assalto colonial e sua continuidade na fórmula globalização

amigo europeu, a burocratização das relações (pessoais) em europa passa também pela contínua reafirmação dos processos de escrita e escritura: publicações de todo tipo, textos técnicos, jurídicos, espirituais, artísticos, etc. permita-me construir nossa relação na oralidade do canto e da voz. talvez, se eu gritar seu nome quando te ver passar do outro lado da rua, quem sabe, um gesto decolonial?


e a nós, “resto do mundo”, muito cuidado, o futuro já está colonizado: europa publicou em três vias o manual decolonial, literalmente transcrito à mão, pigmento natural sobre papel reciclado e encadernado por bordadeiras da economia solidária diretamente do centro do resto do mundo, o livro é lindíssimo!


ps: quem tem natal e reveillon no auge do inferno astral deve compartilhar comigo a sensação de mistura de sentimentos que essas datas trazem. nostálgica, eufórica, solitária, ansiosa por festa e coletividade, dançante e exausta na pressão pra dar certo, vibrando a vontade de virar logo a página, e que vontade de virar logo a página, acabalogopelamordadeusa!

ps2: aliança, assim como estratégia, são palavras do léxico bélico

ps3: meu marte é em libra


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the day before yesterday my astral hell officially began. not that it hadn't been beating here for a few days, and how, but now is official, full moon and all.

I got off the bus and almost stepped on this animal's head. I took the picture without even seeing it, looking more at the ground around it, and I couldn't even tell for sure which animal it was.

since may, when I arrived in brussels, I have been collecting pictures of dead pigeons on the sidewalks, saved in an album called "wild europe".

to see the rancid wild europe is a daily exercise, some things are very important:

when we talk about colony, we talk about the present

when we denounce european violence we are talking about an oppressive force that colonizes ˜ constantly ˜ other forms of social, animal, mineral, spiritual life/organization of/in the world. the use of the expression "rest of the world" says a lot about this

what we can call the wealth that is here was/is stolen by colonization(s), constantly

european citizens need to recognize themselves, as a collectivity, as co-responsible for these expropriations, beneficiaries of privileges that reverberate with dis-privileges in the "rest of the world"

I say collectivity because it is not only a personal attack on you, my european friend with whom I had this conversation yesterday. in some way it is also important that you can feel this uneasiness in your individuality, who knows, from there may come a transforming force, but it is much more about you understanding that you need to organize yourself politically with your equals if you really want to be decolonial

my european friend can be a scalped sheep's head thrown onto the sidewalk

similarly, elites and whiteness in latinamerica need to recognize their privileges and organize collectively to envision decolonial infiltrations. I say for myself, since that in brasil I enjoy the structural privileges of whiteness. to move decolonially in this sense goes through exercises of a slow construction, better achieved through collective actions

in an analogous way, I can be a scalped sheep's head thrown onto the sidewalk

the top of the colonial pyramid is in fact very restricted, hidden in castles and dynasties that we don't even know where they are, however, there is no point, my european friend, in just lamenting over the dead pigeons and washing your working hands while you go around the world with your guaranteed unemployment insurance

it is true that wealth here manifests itself more in the depths of bureaucracy than in social welfare in fact. I agree with you that the path to achieve full rights here is still very long, however, it is urgent to become aware of the violence, lack of rights and global impoverishment: globalize all the crap, globalize the stories of oppression and resistance, to globalize hammer and tongs of a thousand degrees worst than has been around here


save the hangdog look. it was you who invented analysis, use it, european friend. it's naive to say that you don't understand the corruption scandals and social collapse in latinamerica/africa/east, the propagating mentality of what you lament sprouts right here.

in a discussion, please, don't hide the contemporary scandals of corruption in european politics, pretending moral superiority. even, make yourself and your collectivity see the biggest scandal of all, the invention of legal instruments that legitimized the colonial assault and its continuity in the globalization formula

my european friend, the bureaucratization of (personal) relations in europe also passes through the continuous reaffirmation of writing and writing processes: publications of all kinds of texts, technical, juridical, spiritual, artistic, etc. allow me to build our relationship in the orality of song and voice. perhaps, if I shout your name when I see you pass by on the other side of the street, who knows, a decolonial gesture?


and to us, the "rest of the world", be very careful, the future is already colonized: europe has published in three copies the decolonial manual, literally transcribed by hand, natural pigments on recycled paper and bound by fair trade embroiderers directly from the center of the rest of the world, such a beautiful book!


ps: those who have christmas and new year's eve at the peak of astral hell must share with me the mixed feelings that these dates bring. nostalgic, euphoric, lonely, anxious to party and collectivity, dancing and exhausted in the pressure to get it right, vibrating the will to turn the page soon, and what a will to turn the page soon, acabalogopelamordadeusa!

ps2: alliance, as well as strategy, are words from the lexicon of war

ps3: i have mars in libra