manejo movente

Manejo Movente é o nome de um conjunto de práticas artísticas experimentais realizadas na zona rural do município do Crato, região do Cariri Cearense. Proposto por Raquel Versieux em parceria com Elis Rigoni e Lucas Tavares, o projeto foi inicialmente comissionado para o 36º Panorama da Arte Brasileira – Sertão, exposição curada por Júlia Rebouças, no Museu de Arte Moderna, São Paulo. Encerrada essa exposição, em novembro de 2019, o projeto segue buscando dar continuidade às ações, reiventando outras formas de estar em contato no momento em que atravessamos a pandemia de covid-19. As ações acontecem de forma dialógica com a participação de artistas visuais, lideranças locais, agricultoras e agricultores, convidades a construir arranjos colaborativos, tensionando ao menos dois polos: quem tem direito à imaginação e quem tem direito à terra. 


As comunidades que participam do projeto são o “Assentamento 10 de Abril”, integrado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e moradoras do distrito Baixio das Palmeiras, distantes 40 quilômetros uma da outra. Partindo dos contextos sociais, históricos e políticos específicos que envolvem essas comunidades, como por exemplo, a tensão entre desapropriação de terra para a construção dos canais do projeto Cinturão das Águas do Ceará - CAC, e no caso do Assentamento 10 de Abril, sua proximidade aos eventos relacionados à experiência da violentamente extinta comunidade autossuficiente "Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1926-38), é do interesse das práticas ativadas pelo Manejo Movente perceber de que maneira práticas artísticas podem ativar a paisagem na sua condição de uso, pela urgência de dar visibilidade ao presente e ao passado, como o roçar do complexo corpo social em interação com seu ambiente, traçando, a partir daí, relações entre território e colônia, institucionalização de espaços de arte e práticas colaborativas decoloniais, agroecologia e antropoceno.


O Assentamento 10 de Abril mantém relação direta com o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, pois é fruto da ocupação na propriedade onde existiu o Caldeirão, terras que pertencem, ainda hoje, aos padres da Igreja Salesiana, conforme o que foi estabelecido pelo testamento do Padre Cícero, falecido em 1934. No dia 10 de abril de 1991, daí a origem do nome do assentamento, um grupo de 250 famílias de trabalhadores rurais sem terra, oriundos de pelo menos 7 cidades do sul do Estado do Ceará, deu início ao acampamento que durou 22 dias. Após a ocupação, a negociação se deu para que o assentamento ficasse estabelecido em terrenos vizinhos, nas fazendas Carnaúba do Gerais e Gerais, que importante pontuar, não foram desapropriadas, e sim compradas pelo Governo do Estado, na época chefiado por Ciro Gomes (PSDB). O Assentamento 10 de Abril é o segundo mais antigo assentamento do MST no Ceará.


Para a exposição Sertão - 36º Panorama da Arte Brasileira, importante ressaltar, deliberamos por não apresentar nenhum objeto artístico no interior do espaço expositivo. O projeto aconteceu no Crato, simultaneamente ao período da exposição em São Paulo, acreditando que com esse gesto estaríamos ativando uma continuidade espaçotemporal entre as duas cidades, tão divergentes em amplos sentidos, estabelecendo outra relação com a dimensão da estrutura institucional.


Para fins de divulgação, fizemos uso dos meios de comunicação institucionais do museu, que encaminhou mensalmente e-mails com a programação do Manejo Movente. Também foram impressos cartazes, afixados junto ao espaço ocupado pelo educativo do MAM-SP, cafeteria, em outras instituições de arte e cultura na cidade de São Paulo e ambientes culturais e educativos nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, na região do Cariri Cearense. 


Durante quatro finais de semana, um em cada um dos quatro meses que perdurou a exposição Sertão, realizamos a programação que descrevo a seguir. Para o transporte de participantes de uma comunidade para outra, contamos com apoio de ônibus cedido pela Secretaria de Cultura do Crato.


1) 24 e 25 de agosto de 2019: Assentamento 10 de Abril

Roda de Apresentação; Nadar a terra, práticas com o barro: bolas de sementes e máscaras com as crianças, construção de um banco em hiperadobe; Apresentação do Grupo de Incelenças de Barbalha, proposta de Louzinha; Preparação da ação noturna - Caminhada com velas até o sítio do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, em sua memória e homenagem – 8km; Apresentação e debate sobre caminhada / esforços na arte contemporânea; Miolo de Pote Oficina de Xaropes e Pomadas Curativas, com Louzinha


2) 14 e 15 de setembro de 2019: Casa de Quitéria / Casa de Farinha do Baixio

Construção de uma Zona Temporária de Descanso, com a participação dos moradores trazendo suas redes de casa para serem montadas numa área aberta; Encontro com pessoas que migraram para São Paulo em 1970 e retornaram para o Crato em 1990, proposto e conduzido pelo Sr Assis; Exercícios de Xilogravura, Lira Nordestina, conduzido por Zé Lourenço; Ralação preparação da mandioca para Biju; Fogueira na lua cheia e milho assado na brasa; Caminhada pelo baixio, da Casa de Farinha até a Casa de Quitéria, visita às Fuxiqueiras da Chapada; Apresentação sobre redes na arte contemporânea a partir da pesquisa de Raphael Fonseca e obras que participam da exposição Sertão, como Luciana Magno e Daniel Albuquerque


3) 19 e 20 de outubro de 2019 – Assentamento 10 de Abril

Passeio pelos quintais produtivos do Assentamento; Vivência de Agrofloresta, com Vilmar e Silvanete, do sítio Agrodóia, na casa de D. Ana; Cruzinha: oficina de culinária viva com Mônica Mello;


4) Próximo ao encerramento da exposição, em novembro de 2019, um grupo de nove participantes viajou do Crato para São Paulo, são elas: Cicera Ana da Silva Possiano (Cicera), Elis Rigoni, Francisco de Assis Nicolau (Assis), José Antonio Carvalho (Zé Antonio), Lucas Tavares, Maria Ana Silva (Dona Ana), Maria Araujo Ferrer (Louzinha), Valderez Correia Santos (Dona Tereza) e eu. Realizamos uma roda de conversa na Marquise do Parque Ibirapuera, com a participação da curadora Julia Rebouças, integrantes do educativo do MAM-SP e público espontâneo. Esse evento foi registrado em vídeo, pelo educativo do MAM-SP. 


Desde janeiro de 2020, as ações que estamos promovendo se relacionam ao cultivo experimental de algodão, dos tipos arbóreo e herbáceo, com sementes criolas recolhidas entre moradores participantes e sementes cedidas pela embrapa, dos tipos naturalmente coloridos. Estamos criando um banco de reserva de pluma e sementes, com a esperança de que muito em breve poderemos nos reunir com segurança e voltar a trabalhar em colaboração, ativando novas construções com esse material.


Transcrevo trecho da fala de D. Ana, no encontro de novembro de 2019, no MAM-SP:

 

Foi 30 para 32, naquela época, os pobres viviam por viver, nos era bicho bruto do mato, não tinha estudo pra gente pobre, não tinha roupa decente pra gente pobre, não tinha nada pra gente pobre. pobre era um bicho aí. Eu acho que uma onça do mato tinha mais valor que os trabalhador naquela época. Hoje nos não tem muito, assim, muitos valores, porque nos somos lá do miolinho do mato ainda, mas às vistas daquele tempo, nos somos tudo princesas e rainhas. Mas a vida continua, daquele tempo pra cá, teve o padre Cícero, que morava no Juazeiro e foi pra lá, e tinha essa terra dele pra lá, e ficava botando os trabalhadores pra lá e pra cá, e sei que no final de contas o padre Cícero também morreu, e ficou a terra lá, desapegada, sem ninguém. Ficou esse tempo todinho, aí os padres, como são muito sabidos, e lá era do padre Cícero, os padre foi e disse que a terra era deles, diz que naquela época, ha 40, 50, 100 anos, naquela época ninguém comprava terra no sertão..